quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O Sindicalismo e algumas nótulas sobre a "extrema-direita", a Terceira Posição e a Era pós-ideológica

 

Recentemente, passou-se algo na Coreia do Sul, que demonstra na prática o poder e o impacto que os sindicatos podem ter, ao nível da melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Isto que está aqui, escrito pela mão de João Mendes do Aventar, deveria de ser lido atentamente, por todas aquelas "santas ignorâncias" que em Portugal, dizem que "os sindicatos não servem para nada":

«Na Coreia do Sul, algo raro aconteceu que merece a nossa atenção.

O caso passou despercebido por cá, e percebe-se porquê. Porque, numa decisão sem precedentes, a Samsung decidiu distribuir cerca de 23 mil milhões de euros pelos seus funcionários.

Sim, leste bem: 23 mil milhões de euros.

Não foi na ordem dos milhões.
Foi na ordem dos mil milhões.

A decisão resulta de uma ameaça de paralisação total por parte dos sindicatos. A greve teria um custo muito elevado que a empresa não quis pagar.

A distribuição não será igual para todos. E esse é um dos focos de tensão entre trabalhadores e sindicatos. Os 28 mil trabalhadores da divisão de semicondutores e chips para IA vão receber uma média de 350 mil euros de bónus. Os mais de 70 mil da divisão de bens de consumo poderão não ir além dos 5 mil euros. Pelo meio existem outras divisões com trabalhadores a receber entre 100 e 300 mil euros.

Ainda assim, é um marco histórico que revela a força e importância dos sindicatos e da negociação colectiva. A Samsung registou um crescimento notável nos últimos anos, os lucros relacionados com a inteligência artificial estão a explodir, e os trabalhadores exigiram a sua parte. E não será por isso que a empresa ficará mais pobre. Pelo contrário. Trabalhadores felizes tendem a produzir mais e melhor.

E repara que isto acontece num país que alterna entre o AD e o CH no poder. Não há o mínimo de resquício partidário de esquerda naquele país. E, ainda assim, os sindicatos são essenciais e bastante úteis aos seus associados, como se viu neste caso.

Muitos portugueses, contudo, foram convencidos pela propaganda financiada pelos insuspeitos do costume, de que pertencer a um sindicato ou lutar por mais e melhores direitos laborais é um crime de lesa-pátria que nos conduzirá a uma situação que estará ali entre a União Soviética e o regime cubano. É natural que a oligarquia invista no ataque aos sindicatos. Se as pessoas começam a descobrir como se conseguem os salários elevados do norte da Europa, a exploração que temos por cá poderá ter os dias contados.»

O grande mal, a grande doença que tem prejudicado o poder sindical em Portugal, estou em crer, é o facto de determinados sindicatos serem simultaneamente, "correias de transmissão" de alguns partidos políticos, que muitas vezes confundem os seus interesses com os dos trabalhadores. 

Os sindicalismo também não é necessariamente um "quintal" que pertence à esquerda ou extrema-esquerda. Houve em Portugal, um célebre exemplo do sindicalismo da Terceira Posição, que foi protagonizado pelo Movimento Nacional-Sindicalista de Francisco Rolão Preto na década de 1930. 

Rolão Preto e os nacionais-sindicalistas, consideravam-se como estando «para além da democracia, do fascismo e do comunismo». Apesar de serem comummente considerados como sendo de "extrema-direita", isto é um erro, pois a verdadeira categorização científica que se deve dar a movimentos políticos como o de Rolão Preto é o da chamada Terceira Posição. Esta é a categoria científica em que se enquadram movimentos políticos que rejeitam tanto o Liberalismo, como o Socialismo/Comunismo e que por esse mesmo motivo, têm de ser colocados numa "prateleira" à parte. O termo "direita" ou "extrema-direita", não nos permite categorizar correctamente, do ponto de vista científico-ideológico, determinados movimentos de índole revolucionária, que são avessos tanto ao Capitalismo burguês, como ao Marxismo. O Fascismo Italiano é um exemplo disto. A insistência em categorizar o Fascismo de Mussolini como sendo de "extrema-direita", quando este é na verdade um movimento de Terceira Posição, constitui um erro crasso. Mussolini em toda a sua vida, nunca foi de direita ou de extrema-direita, pelo contrário, ele foi durante muito tempo um socialista bastante radical e bem ligado à esquerda, sendo que só em 1921, é que ele cria o Partido Nacional Fascista que, vejam bem, teve boas relações comerciais e diplomáticas com a própria URSS até ao eclodir da Segunda Guerra Mundial. Até 1941, data em que Hitler atacou a URSS, tanto fascistas, como comunistas, apesar da retórica e dos discursos inflamados, colaboravam entre si porque ambos queriam destruir a velha ordem burguesa, capitalista e demo-liberal da Europa. Aliás, não foi ao mero acaso que Estaline e Hitler coordenaram entre si a invasão e anexação da Polónia em 1939, mas sim, porque tanto nazis como soviéticos, à época, tinham relativamente boas relações e o próprio Estaline estava confiante de que Hitler nunca atacaria a URSS. O ódio comum ao demo-liberalismo burguês foi o que uniu comunistas, nazis e fascistas até Junho de 1941. Tudo isto está hoje largamente esquecido e tem sido "varrido para debaixo do tapete", pois não convém a determinadas narrativas "bem-pensantes" e a certos partidos políticos, que se saibam destas coisas...

É preciso colocar os movimentos que rejeitam o Liberalismo e o Comunismo, noutra prateleira ideológica separada e é por isso que eu sempre os arrumei no campo da Terceira Posição, algo que é perfeitamente legitimo e sustentável do ponto de vista académico. Esta diferenciação ajuda não só a arrumar melhor as ideias, como também reduz a grande confusão que existe no campo ideológico da direita e da extrema-direita. 

O Nazismo ou Nacional-Socialismo alemão, é normalmente considerada uma ideologia de extrema-direita. Esta argumento pode ser sustentado até certo ponto, mas é errado do ponto de vista de uma análise estritamente científica. O Nacional-Socialismo tem muito mais em comum com o campo ideológico da esquerda, do que da direita, sendo que se trata essencialmente de um movimento revolucionário, herdeiro da tradição de revolução violenta e sanguinária, que emergiu com a Revolução Francesa em 1789. O Nazismo rejeita de forma visceral, o Liberalismo e a sociedade burguesa e substitui a concepção marxista da luta de classes e da economia como sendo o "motor da história", pela luta de raças, que na concepção teórica de Adolf Hitler, seria o verdadeiro "motor da história". 

Agora, para se ter uma melhor noção da estupidez que por aí corre, veja-se o caso do partido Chega em Portugal. O Chega defende exactamente o oposto daquilo que o Nazismo e Hitler defendiam. Trata-se de um partido que defende o Liberalismo, o mercado livre e a livre iniciativa no seu pleno. Não é de forma alguma, um partido de índole revolucionária, herdeiro da tradição violenta de 1789, pelo contrário, é um partido burguês, moderadamente conservador e defensor do Capitalismo. Apesar de não ter absolutamente nada de verdadeiramente radical, o Chega é comummente designado como sendo de "extrema-direita". Isto não faz sentido nenhum. O Chega não defende rigorosamente nada que seja "extremo" do ponto de vista político e social. O facto de ter um programa político que propõe restrições moderadas à imigração, como se faz em grande parte do Mundo, não faz dele um partido "extremo". Não há qualquer indício de extremismo no Chega e muito menos qualquer indício de que seja um partido "fascista" ou "nazi". Há é muita idiotice, parco conhecimento de geopolítica, relações internacionais e economia real e ignorância em relação a determinados temas, tal como acontece em todos os partidos que existem hoje em Portugal. Afirmarem que o Chega é "populista" também não explica nada, sendo que esse termo é até uma aberração científica. Dizer-se que algo é "populista", significa apenas que se procura popularidade juntos das massas e tanto quanto eu seu, isso é o que todos os partidos tentam logicamente fazer em toda e qualquer campanha eleitoral...

O mais interessante para mim no Chega, é a forma como o Chega surgiu a partir do nada em 2019, logo com muito dinheiro e meios para fazer publicidade e a forma como tem sido "levado ao colo" pelos meios de comunicação social. É isto que me leva precisamente a crer que o Chega de André Ventura é um partido de oposição controlada. O discurso neocon de André Ventura, visceralmente pró-Israel, russófobo, islamofóbico, sinofóbico e completamente submisso aos interesses americanos e sionistas, é o que realmente me preocupa. Esta é que é a verdadeira questão.  

O sistema cria e promove partidos de oposição controlada, tanto de esquerda, como de direita, de forma não só a distrair as massas, como para também semear confusão. Os partidos de oposição controlada, funcionam como "válvulas redutoras de pressão" do sistema, onde os eleitores descontentes e frustrados podem canalizar a sua raiva, votando naquilo que julgam ser uma "alternativa" ao sistema. Na verdade, estão a ser enganados... Trump, Bolsonaro, Meloni, Salvini, etc... são tudo exemplos disto. Vamos ver o que vai suceder com a AFD na Alemanha, mas nada me leva a ter grande esperança, pois as ligações da AFD a Israel e ao Sionismo, são verdadeiramente alarmantes. 

Acredito e já digo isto há vários anos, que estamos a entrar, por via do esgotamento e descredibilização das velhas soluções ideológicas, numa Era pós-ideológica. As velhas "receitas" dos ideólogos dos séculos XVIII, XIX e XX, tanto socialistas, como marxistas, mas também liberais e fascistas, estão completamente esgotadas como alternativas políticas credíveis e fiáveis. As ideologias políticas, são essencialmente simplificações da realidade e é exactamente aqui que reside o problema das mesmas, pois estas nunca conseguem corresponder no longo prazo, às complexidades, dinâmicas e desafios de um Mundo em mudança e constante mutação. A revolução que se avizinha com o desenvolvimento da Inteligência Artificial e a "caixa de pandora" que a mesma vai abrir nas próximas décadas, vai inaugurar toda uma nova equação, para a qual as velhas ideologias não oferecem resposta ou soluções. A China maoista é um bom exemplo disto, onde o Partido Comunista que por lá governa, foi obrigado a reformar-se de forma drástica e a colocar o Marxismo parcialmente "na gaveta", se não quisesse acabar da mesma forma que acabou a famigerada União Soviética. 

Vamos assistir nas próximas décadas a uma grande alteração do pensamento político, no sentido em que ao que tudo indica, passará a ser o pragmatismo, os interesses nacionais e o realismo que vão moldar a política do futuro. O grande risco, é o de resvalarmos numa tecnocracia da Inteligência Artificial, sem face humana e onde as ciências sociais, a dimensão espiritual e as artes sejam desconsideradas por completo. Este vácuo estéril e distópico é o verdadeiro perigo em que a Humanidade e a Civilização não se podem deixar cair, sob pena de desaparecermos como espécie. 

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