quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Quem matou Francisco Sá Carneiro?...

 

No dia 19 de Dezembro de 2005, o jornalista Frederico Duarte Carvalho publicou um longo artigo, intitulado o filme - Uma Última Seia no Rossio, que podem encontrar aqui: 

https://ofimdademocracia.blogspot.com/2005/12/o-filme-uma-ltima-ceia-no-rossio.html 

Nada disto seria de notar, não fosse o facto do artigo, na prática, ser um novelo imenso que tem de ser analisado com redobrada atenção e onde se mistura CIA, Henry Kissinger, Sá Carneiro, Mário Soares, Cavaco Silva, o caso Irão-Contras, a democracia em Portugal (e o seu fim...), George W Bush, a Guerra do Iraque e uma curiosa "última ceia" no Rossio, que terá decorrido a 22 de Março de 2003, quando as bombas americanas já caíam em Bagdade. 

À primeira vista, tudo isto configura uma imensa "salada russa" de informações, onde se misturam elementos de todo o tipo e que mais parece algo saído da cabeça de um qualquer doidinho das teorias da conspiração. Porém, o autor de tudo isto não é um sujeito qualquer, mas um jornalista de referência com obra publicada e provas dadas. Creio não estar errado ao afirmar que Frederico Duarte Carvalho, será talvez o jornalista português que mais investigou até hoje o Caso Camarate a fundo, tendo depois publicado a obra Camarate - Sá Carneiro e as Armas Para o Irão. Para além disto, participou também na IX e X Comissão Parlamentar de Inquérito, onde prestou o seu testemunho sobre a tragédia de Camarate. Não estamos, portanto, perante um qualquer teórico das conspirações. Ao invés, este jornalista tem currículo e o que ele escreve sobre o que aconteceu em Camarate, merece uma análise cuidada e profunda reflexão. 

A tese central que Frederico Duarte Carvalho constrói no seu livro Camarate: Sá Carneiro e as Armas Para o Irão, é a de que houve intenção dolosa no sentido de assassinar Francisco Sá Carneiro, devido ao facto de o então Primeiro-Ministro estar prestes a denunciar uma enorme conspiração com profundas ramificações internacionais. Esta teia criminosa envolveria tráfico de armas, altas patentes militares portuguesas, o Fundo de Defesa Militar do Ultramar e interesses geopolíticos dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. 

O plano para eliminar Sá Carneiro, acabou por ter sustentação em três eixos principais:

1 - O Desvio do Fundo de Defesa Militar do Ultramar
  • Descoberta da Fraude: Sá Carneiro teve acesso a documentos confidenciais que provavam o desvio de verbas deste fundo público.
  • Financiamento Paralelo: O dinheiro desviado servia para financiar operações clandestinas e redes de tráfico de armamento que operavam a partir de Portugal.
  • Denúncia Iminente: Sá Carneiro ordenou uma investigação financeira rigorosa, ameaçando expor figuras poderosas do regime militar pós-25 de Abril, que estavam envolvidos no desvio de milhões de contos do Fundo do Ultramar.
2. A Rota de Armas para o Irão
  • A Conexão a Teerão: Portugal funcionava como um entreposto estratégico para o envio de armamento para o Irão (que estava em guerra com o Iraque e sob embargo dos EUA).
  • Interesses dos EUA: Esta rota estava interligada com os interesses geoestratégicos dos EUA e que à época eram ocultos (ainda não tinha rebentado o escândalo que ficaria conhecido mundialmente como o Caso Irão-Contras).
  • Bloqueio Político: Como Primeiro-Ministro, Sá Carneiro tinha o poder legal para travar o tráfico de armas que passava por Portugal e neste sentido, ele pretendia proibir que os EUA continuassem a utilizar o território português, para levar a cabo este comércio ilegal de armamento. Isto, obviamente, constituía uma afronta direta a Washington e ao Império Americano em plena Guerra Fria. 
3. Eliminação da Resistência Política em Portugal
  • Ameaça ao Sistema: Sá Carneiro era visto por Washington como uma força política intransigente, com uma postura política soberanista, bastante imprevisível e incorruptível face às máfias militares que operavam em Portugal. A CIA passou a considerar Sá Carneiro como um alvo a abater, pois este estava a ameaçar interesses geoestratégicos dos EUA. Terá sido, com grande probabilidade, Henry Kissinger a dar o avalo final para o assassinato de Sá Carneiro, quando visitou Lisboa poucos dias antes do atentado, a pretexto de uma alegada «missão importante» que nunca foi devidamente explicada. Em 1980, Kissinger era conselheiro e um dos homens de confiança da administração Reagan. Tudo leva a crer que foi precisamente por este motivo, que Kissinger foi escolhido para vir discretamente a Lisboa, com o intuito de preparar o terreno para a substituição de Sá Carneiro e "acertar as agulhas" com os novos poderes em Portugal, que assumiriam o governo após o atentado. 
  • Garantia de Impunidade: A morte de Sá Carneiro (juntamente com a do Ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa), visava garantir o silenciamento das investigações em curso, salvaguardando assim a impunidade definitiva de todos os envolvidos. 
  • Intimidação: Matar Sá Carneiro de forma violenta, era também uma forma de intimidar outros eventuais futuros poderes em Portugal, que pudessem ter o atrevimento de vir a tentar afrontar os EUA. A mensagem de Washington era simples, mas brutal: quem desafiar o Império, pode vir a ter um fim semelhante ao de Sá Carneiro... 

Portugal e o povo português merecem saber a verdade completa sobre aquilo que realmente aconteceu em Camarate. O dia 4 de Dezembro de 1980, foi o nosso 11 de Setembro. A morte de Sá Carneiro, para mim, marca o momento no período do pós-25 de Abril, em que Portugal fica definitivamente reduzido à condição de um mero Estado vassalo do Império Americano. A pouca soberania que nos restava como Estado e à qual ficámos reduzidos por intermédio da «descolonização exemplar», esfumou-se com o atentado de Camarate. 

Acredito que, no mínimo, se não foi a CIA que levou diretamente a cabo o atentado que matou Sá Carneiro, esta pelo menos facilitou o mesmo, em provável conluio com altas patentes militares em Portugal, que estavam envolvidas tanto em negócios de tráfico de armas, como no desvio de milhões de contos do Fundo de Defesa Militar do Ultramar. É também plausível que tenham estado envolvidas, directa ou indirectamente, figuras políticas influentes da época. 

Tudo indica que é também falsa a teoria muito circulada, que advoga que Adelino Amaro da Costa era o verdadeiro alvo do atentado. Na realidade e pelos vários motivos já expostos acima, o objetivo principal dos conspiradores seria mesmo a eliminação física de Sá Carneiro, pois este havia-se tornado demasiado perigoso e incómodo, tanto para os americanos, como para certas pessoas com poder em Portugal. 

A razão pela qual eu acredito que até hoje todas as Comissões Parlamentares de Inquérito e investigações associadas ao Caso Camarate, nunca deram em nada, deve-se ao facto dos EUA estarem diretamente implicados nesta trama. Nenhum governo português quer ter nas mãos uma conclusão oficial e devidamente comprovada, que afirme de forma explícita, que foram os Estados Unidos da América que assassinaram o Primeiro-Ministro de Portugal em 1980. A acontecer tal coisa, o Estado Português teria de pedir responsabilidades a Washington e todos sabemos que no atual regime, não há um único político que tenha capacidade ou coragem para tal. 

A extinção da Direção-Geral de Segurança (DGS) no dia 25 de Abril de Abril de 1974, teve também potencialmente um papel na morte de Sá Carneiro. Portugal, em consequência disto, ficou sem um serviço de informações digno desse nome. De 1974 até 1984, data em que foi criado o atual Serviço de Informações de Segurança (SIS), Portugal esteve entregue à sorte no que diz respeito a capacidades de inteligência, espionagem e contra-espionagem. Esta falha gravíssima, com alta probabilidade, facilitou toda a conspiração que levou à tragédia de Camarate. 

A forma como Sá Carneiro morreu e os motivos que levaram à sua morte, deveriam de ser motivo de profunda indignação para todos em Portugal. Isto é uma questão que ultrapassa a pequena política dos partidos. É a dignidade nacional que está em causa e esta não poderá ser restaurada, enquanto os responsáveis pelo atentado de Camarate não forem todos devidamente expostos em praça pública.  

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