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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O PSD/CDS-PP foi a "direita" que a esquerda autorizou no pós-25 de Abril

 
  

A Lobo Media publicou um artigo interessante, que expõe uma das facetas menos conhecidas do pós-25 de Abril, ou seja, como o PSD e também o CDS-PP, foram a "direita" que resultou da ditadura que a esquerda em Portugal tratou logo de tentar implantar, assim que se deu o golpe do 25 de Abril de 1974:

«25 ocasiões em que os fundadores e líderes do PSD rejeitaram que o partido fosse de ‘direita’»

É um facto que Portugal deixou de ter uma direita conservadora, nacionalista e patriótica, no dia 25 de Abril de 1974, quando Marcelo Caetano se rendeu no Quartel do Carmo (uma história que está ainda muito mal contada...).  

A Acção Nacional Popular, que resultou da redenominação e reorganização da União Nacional fundada originalmente por Salazar, foi real e efectivamente, o último partido genuinamente nacional e da direita conservadora/nacionalista que governou em Portugal, até ser dissolvido no dia 25 de Abril de 1974. 

Repare-se na ironia e na hipocrisia: os golpistas de 74, prometeram a "democracia" em Portugal, todavia, a primeira coisa que fizeram assim que tomaram o poder pela força, foi ilegalizar partidos políticos e começar a perseguir e prender tudo o que era opositor considerado de "direita". O infame Relatório das Sevícias, é bem demonstrativo do que Portugal passou às mãos da extrema-esquerda entre 1974 e 1976, com inúmeros casos documentados de prisões arbitrárias, espancamentos, tortura, raptos, saneamentos, etc... No ano seguinte, em 1977, já cá tínhamos o FMI a intervir em Portugal, pois os "revolucionários" do PREC dos "amanhãs a cantar" e de cravos vermelhos ao peito, não tardaram a estafar o País e rebentaram com a economia nacional. 

E pelo meio, aprovaram a Constituição de 1976, num parlamento que estava sob cerco da esquerda radical, Constituição esta que continua em vigor até hoje, sem nunca ter sido sujeita a qualquer referendo popular. Recordo que, até no regime de Salazar, a Constituição de 1933 tinha sido sujeita a um plebiscito popular... como se faz em grande parte dos países, quando se quer ver aprovado um novo documento ou carta constitucional.

O que aconteceu no pós-25 de Abril é o que, por norma, acontece quando se metem miúdos de vinte e poucos anos de idade e até adolescentes, a fazer "revoluções" e a mandar num País, sem saberem minimamente o que estão a fazer e sem terem quaisquer bases sólidas. Muitos dos "revolucionários" do PREC eram miúdos que falavam de Marx, Engels e de Fascismo e Capitalismo, mas que na realidade não sabiam rigorosamente nada sobre isto. Nunca tinham lido o Das Kapital de Marx, não conheciam as obras dos liberais da Escola de Chicago ou da Escola Austríaca, não percebiam "um corno" daquilo que é realmente o Fascismo, mas chamavam "fascista" a todos os que os contrariavam... a ignorância e a burrice, associada ao chico-espertismo tipicamente português, é o que depois dá em episódios lamentáveis, como aqueles a que o País inteiro assistiu durante o PREC. Neste caso, o saldo foi catastrófico: Portugal acabou economicamente arrasado, foi neutralizado como potência mundial, perdeu praticamente toda a sua capacidade de projecção de poder em termos estratégicos e geopolíticos, viu-se amputado dos seus territórios em África, sem qualquer consulta popular e com um custo humano de mais de um milhão de mortos e feridos, que resultaram da dita "descolonização exemplar". A esquerda, realmente, está "de parabéns" por esta obra... daqui por 50 ou 100 anos, logo veremos o que os livros de história vão dizer sobre a "malta" da "revolução" de 74 e aquilo que fizeram a Portugal... 

Uma coisa parece-me certa, é que mais de meio século após o fim do governo de Marcelo Caetano, continua a não existir em Portugal nenhum partido genuinamente patriótico, identitário e nacionalista. O Chega de André Ventura, é um partido liberal-conservador, pró-sionista, pró-europeísta e pró-atlantista. Nem Marcelo Caetano, nem Salazar, nem os integralistas lusitanos e muito menos os nacionais-sindicalistas de Rolão Preto, alguma vez dariam aprovação a um partido com a linha político-ideológica do Chega. 

Todavia, é saudável para a Nação haver diferenças de opiniões e debate, sendo que neste sentido, o Chega tem sido útil, pois veio quebrar o monopólio político da esquerda em Portugal. Estou cansado de viver na "lanterna vermelha" da Europa, minada por ideias do século XIX e com partidos políticos que já cheiram a bolor, sempre com o mesmo discurso "velho e relho" de cravos, cantigas e abriladas falidas em que já muito poucos acreditam. 

sábado, 15 de agosto de 2026

Fernando Farinha Simões: «Os americanos nunca gostaram do Sá Carneiro»

 
 

Ontem, publiquei neste blogue um extenso artigo sobre o Caso Camarate, onde dei a conhecer algumas fontes essenciais, para se entender o que é que realmente aconteceu no dia 4 de Agosto de 1980. Fernando Farinha Simões, um dos principais nomes associados ao Caso Camarate, foi uma das pessoas que eu referi. Ora, por coincidência (e é realmente uma coincidência muito, muito estranha...), este mesmo Fernando Farinha Simões, deu também ontem uma longa entrevista a um obscuro canal de youtube, que podem ver no video que partilho acima e que na minha opinião, é a melhor e mais esclarecedora entrevista que Fernando Farinha Simões deu até hoje. 

Não vou alongar-me aqui sobre as gravíssimas revelações e acusações que Fernando Farinha Simões faz nesta entrevista, mas posso dizer que isto ultrapassa tudo aquilo que já veio a público até hoje, sendo que são aqui nomeados muitos nomes. Esta entrevista é uma "bomba" onde se fala de um pouco de tudo, desde o consumo de cocaína por parte de muita gente da "fina flor" da elite política e mediática nacional, à pedofilia, terrorismo, lavagem de dinheiro, corrupção em larga escala, tráfico de armas, espionagem e muito mais.  

Aliás, sobre as "elites" em Portugal, Fernando Farinha Simões é peremptório e passo a citar: «É tudo escumalha. É quase tudo drogados. Elas são piores que as gajas que trabalhavam no Elefante Branco e bêbados. E uma cambada de pedófilos que andam aí, que eu conheço alguns, percebe?...»  

Em Portugal o Rei vai nu e a Terceira República está reduzida a um caldeirão de podridão. O atual regime, qual Sodoma e Gomorra, não tem já ponta por onde se lhe pegue. Finis Patriae.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Alguns subsídios para a compreensão do Caso Camarate


«O nosso Povo tem sempre correspondido, nas horas de crise. As elites, as chamadas elites, é que sempre o traíram (...).» - Francisco Sá Carneiro, em Abril de 1978 (dois anos antes de ser assassinado)
 
Desde há mais de dez anos que eu investigo o Caso Camarate, sendo que até já cheguei a falar uma vez com José Esteves, que terá sido quem fez a bomba incendiária que matou Sá Carneiro e tenho reunido imensa informação sobre o assunto em questão. Deixo-vos aqui alguns subsídios que são mais do que suficientes para se perceber o que se passou no dia 4 de Dezembro de 1980. 
 
Em primeiro lugar, podem ficar com esta entrevista ao próprio José Esteves, onde se vê também o jornalista Frederico Duarte Carvalho que faz de tradutor. Este terá sido por confissão própria, quem fez a bomba incendiária a mando de Fernando Farinha Simões, que depois foi colocada no Cessna 421 que acabou por cair em Camarate. José Esteves nasceu em Angola, foi comandante da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a certa altura, começou a ser usado pela CIA para fazer algum trabalho sujo. Durante o PREC José Esteves fez parte do Movimento Democrático de Libertação de Portgual (MDLP), que andava a colocar bombas em sedes do Partido Comunista Português (PCP). Foram em grande parte as bombas feitas pelo José Esteves que aterrorizaram a extrema-esquerda durante o Verão Quente de 1975. Em relação a Camarate, ele alega que não sabia que a bomba que fez era para matar Sá Carneiro e até fala de uma «segunda bomba» que seria de Frank Stugis, outro operacional da CIA, que esteve também envolvido em tudo isto até ao pescoço e que até se suspeita, que possa ter estado também implicado no assassinato de John F. Kennedy em 1963. Eu digo que é mentira. Só havia uma bomba e foi a que José Esteves fabricou, só que ele não quer admitir que é corresponsável pela morte de 7 pessoas inocentes e então inventou a tal estória da «segunda bomba»:
 
 
 
À margem, temos aqui um episódio insólito que José Esteves protagonizou em 1996, quando estacionou um carro blindado à porta de casa na Rua de São Ciro em plena Lisboa. Por aqui percebem melhor o "calibre" e o estilo da personagem em causa:
 
 

 
Depois, temos aqui outra peça-chave em toda esta história, neste caso Fernando Farinha Simões. Esta, é uma personagem, que também andou metido no MDLP e tem uma história de vida que dava para escrever um livro. Por confissão própria, trabalhou para a CIA até 1989, tem ligações familiares a Israel, às Forças de Defesa de Israel, à Mossad e foi ele que recrutou José Esteves para a operação que resultou na tragédia de Camarate, tendo pago a este 200 mil dólares pelo fabrico da bomba. Este Fernando Farinha Simões admite até que todo o dinheiro que financiou o assassinato de Sá Carneiro, foi fornecido pela CIA:
 
 
 
Aqui temos Frederico Duarte Carvalho, em duas entrevistas que deu a Alan Weberman. Este é o jornalista que mais tem contribuído para expor a verdade sobre Camarate. É o autor do livro Camarate - Sá Carneiro e as Armas para o Irão: 
 
 
 

Por fim, voltamos a Fernando Farinha Simões e aqui deixo o link para a longa confissão de 18 páginas, que este escreveu em 2012 na prisão, enquanto cumpria pena por ter sequestrado uma jornalista. Segundo o próprio, ele terá sido abandonado pela CIA em 1989 e como os crimes em causa já prescreveram, ele já nada tem a esconder: 

https://portugaldeantigamente.blogs.sapo.pt/tag/matou 

Desta longa confissão de Fernando Farinha Simões, dei-me ao trabalho de extrair alguns excertos que falam por si:

«Há também Portugueses que estavam a beneficiar com o tráfico de armas, como o Major Canto e Castro, o General Pezarat Correia, Franco Charais e o empresário Zoio. Sabe-se também já nessa altura que Adelino Amaro da Costa estava a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar acabar com lobbies instalados. Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições. Restava portanto a via de um atentado.

Passados alguns dias, recebo um telefonema do Major Canto e Castro (pertencente ao conselho da revolução), que eu já conhecia de Angola, pedindo para eu me encontrar com ele no Hotel Altis. Nessa reunião está também Frank Sturgies, e fala-se pela primeira vez em "atentado", sem se referirem ainda quem é o alvo. referem que contam comigo para esta operação. O Major Canto e Castro diz que é preciso recrutar alguém capaz de realizar esta operação.

Tenho depois uma segunda reunião no Hotel Altis com Frank Sturgies e Philip Snell, onde Frank Sturgies me encarrega de preparar e arranjar alguns operacionais para uma possível operação dentro de pouco tempo, possívelmente dentro de 2 ou 3 meses. Perguntam-me se já recrutou a pessoa certa para realizar este atentado, e se eu conheço algum perito na fabricação de bombas e em armas de fogo.

[...]

Tendo que organizar esta operação, falo então com José Esteves e mais tarde com Lee Rodrigues ( que na altura ainda não conhecia). O elo de ligação de Lee Rodrigues em Lisboa era Evo Fernandes, que estava ligado à resistância moçambicana, a renamo. Falo nessa altura também com duas pessoas ligadas à ETA militar, para caso do atentado ser realizado através de armas de fogo.

Depois, noutro jantar em casa de Frank Carlucci, na Lapa, na Mansarda, no último andar, onde jantamos os dois sozinhos, Frank Carlucci diz abertamente e pela primeira vez, o que eu tinha de fazer, qual era a operação em curso e que esta visava Adelino Amaro da Costa, que estava a dificultar  o transporte e venda de armas a partir de Portugal ou que passavam em Portugal, e que havia luz verde dada por Henry Kissinger e Oliver North. Cumprimento ambos, referindo que sou "o homem deles em Lisboa".

Três semanas antes dos atentado, Canto e Castro e Frank Surgies, referem pela primeira vez, que o alvo do atentado é Adelino Amaro da Costa. O Major Canto e Castro afirma que irá viajar para Londres. Frank Sturgies pede-me que obtenha um cartão de acesso ao aeroporto para um tal Lee Rodrigues, que é referido como sendo a pessoa que levará e colocará a bomba no avião.

[...]

Vou e levo comigo José Esteves. Essa reunião tem lugar entre as 20 e as 23 horas, nela participando Philips Snell, Oliver North, Frank Sturgies, Sydral e Lee Rodrigues e mais cerca de 2 ou 3 estrangeiros, que julgo serem americanos. Nesta reunião é referido que há que preparar com cuidado a operação que será para breve, e falam-se de pormenores a ter em atenção.

É  referido também os cuidados que devem  ser realizados depois da operação, e o que fazer se algo correr mal. A língua utilizada na reunião é o Inglés. José Esteves recebeu então USD 200.000 pelo seu futuro trabalho. Eu não recebi nada pois já era pago normalmente pela CIA. Eu nessa altura recebia da CIA o equivalente a cinco mil dólares, dispondo também de dois cartões de crédito Diner's Club e Visa Gold, ambos com plafonds de 10.000 Doláres.

[...]

José Esteves prepara então em sua casa no Cacém,  um engenho para o atentado. Conta com a colaboração de outro operacional  chamado Carlos Miranda, expecialista em explosivos, que é recrutado por mim, e que eu já conhecia de Angola, quando Carlos Miranda era comandante da FNLA e depois CODECO em Portugal. José Esteves foi também um dos principais comandantes da FNLA, indo muitas vezes a Kinshasa.

Depois do artefacto estar pronto, vou novamente a Paris. No Hotel Ritz, à tarde, tenho um encontro com Oliver North, o cor. Wilkison e Philip Snell, onde se refere que o alvo a abater era Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa.

Volto a Portugal, cerca de 5 ou 6 dias antes do atentado. É marcado por Oliver North um jantar no hotel Sheraton. Nesse jantar aparece e participa um indivíduo que não conhecia e que me é apresentado por Oliver North, chamado Penaguião. Penaguião afirma ser segurança pessoal de Sá Carneiro. Oliver North refere que Penaguião faz parte da segurança pessoal de Sá Carneiro e que é o homem que conseguirá meter Sá Carneiro no Avião. Penaguião afirma, de forma fria e directa que sá Carneiro também iria no avião, "pois dessa forma matavam dois coelhos de uma cajadada! "

Afirma que a sua eliminação era necessária, uma vez que Sá Carneiro era anti-americano, e apoiava incondicionalmente Adelino Amaro da Costa na denúncia do trático de armas, e na descoberta do chamado saco azul do Fundo de Defesa do Ultramar, pelo que tudo estava, desde o início, preparado para incluir as duas pessoas.

Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Fico muito receoso, pois só nesse momento fiquei a conhecer a inclusão de Sá Carneiro no atentado. Pergunto a Penaguião como é que ele pode ter a certeza de que Sá Carneiro irá no avião, ao que Penaguião responde de que eu não me preocupasse pois que ele, com mais alguém, se encarregaria de colocar Sá Carneiro naquele avião naquele dia e naquela hora, pois ele coordenava a segurança e a sua palavra era sempre escutadda. No final do jantar, juntam-se a nós três o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas.

Fico estarrecido com esta nova informação sobre Sá Carneiro, e decido ir, nessa mesma noite, à residência do embaixador dos EUA, na Lapa, onde estava Frank Carlucci, a quem conto o que ouvi. Frank Carlucci responde que não me preocupasse, pois este plano já estava determinado há muito tempo. Disse-me que o homem dos EUA era Mário Soares, e que Sá Carneiro, devido à sua maneira de ser, teimoso e anti-americano, não servia os interesses estratégicos dos EUA.

Mário Soares seria o futuro apoio da política americana em Portugal, junto com outros lideres do PSD e do PS. Aceito então esta situação, uma vez que Frank Carlucci já me havia dito antes que tudo estava assegurado, inclusivamente se algo corresse mal, como a minha saída de Portugal, a cobertura total para mim e para mais alguém que eu indicasse, e que pudesse vir a estar em perigo. Isto é a usual "realpolitik" dos Estados Unidos, e suspeito que sempre será.

 [...]

Eu não participo na reunião, fico à porta. Contudo José Esteves diz-me depois que nessa conversa Lencastre Bernardo lhe referiu que, numa anterior conversa com Francisco Pinto Balsemão, este lhe havia dito ter tido conhecimento prévio do atentado de Camarate, pois em Outubro de 1980, Kissinger o informou de que essa operação ia ocorrer. Disse-lhe também que ele próprio tinha tido conhecimento prévio do atentado de Camarate. Disse-lhe ainda que podíamos estar sossegados quanto a Camarate, pois não ia haver problemas connosco, pois a investigação deste caso ia morrer sem consequências.

A este respeito gostaria de acrescentar que numa reunião que tive, a sós, em 1986, com Lencastre Bernardo, num restaurante ao pé do edifício da PJ na Rua Gomes Freire, ele garantiu-me que Pinto Balsemão estava a par do que se ia passar em 4 de Dezembro. No restaurante Fouchet's, em Paris, Kissinger tinha-me dito, “por alto”, que o futuro Primeiro Ministro de Portugal seria pinto Balsemão.

E importante referir que tanto Henry Kissinger como Pinto Balsemão eram já, em 1980, membros destacados do grupo Bilderberg, sendo certo que estas duas pessoas levavam convidados às reuniões anuais desta organização. Deste modo, aquando da conversa com Lencastre Bernardo, em 1986, relacionei o que ele me disse sobre Pinto Balsemão, com o que tinha ouvido em Paris, em 1980. Tive também esta informação, mais tarde, em 1993, numa conversa que tive com William Hasselberg, em Lisboa, quando este me confirmou de que Pinto Balsemão estava a par de tudo.» 

Tudo o que está exposto acima, penso que não deixa margem para a menor dúvida de que a CIA, esteve diretamente envolvida no assassinato de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. É absolutamente vergonhoso como foram precisos mais de 30 anos, para se saber de tudo isto. O Caso Camarate foi propositadamente deixado em "banho-maria" durante décadas, para que o tempo fosse eliminando as provas, as testemunhas e muitos dos próprios participantes que entretanto foram morrendo. Os poucos que ainda respiram, já não podem ser perseguidos judicialmente, pois os crimes já estão prescritos. 

O Caso Camarate, para além de ter sido um crime hediondo, é uma das maiores infâmias e vergonhas da história da Terceira República Portuguesa. É escandaloso como nenhum governo português, tem a coragem de chamar publicamente à responsabilidade o governo dos Estados Unidos da América, por ter assassinado o Primeiro-Ministro de Portugal no dia 4 de Dezembro de 1980. A CIA, a Polícia Judiciária, o Ministério Público, a Embaixada Americana em Portugal e determinados poderes políticos e militares em Portugal, todos colaboraram entre si para garantir que as investigações ao Caso Camarate, nunca resultariam em qualquer julgamento ou condenação. Nunca, em toda a história de Portugal, se registou algo semelhante a isto. 

Não há verdadeiramente democracia em Portugal. O que há é uma oligarquia travestida de "democracia" e que Washington permite que exista e sobreviva, na condição de que esta alinhe com a agenda do Império. O 25 de Abril e a «descolonização exemplar» que se lhe seguiu, neutralizou as capacidades de projeção de poder, que Portugal tinha no sistema internacional de relações entre as grandes potências. Com a morte de Sá Carneiro, que foi o último político realmente soberanista que tivemos no poder, esfumou-se a pouca independência que ainda restava a Portugal e o País, reduzido à indigência, entregue ao internacionalismo apátrida de Bruxelas e a gente completamente inenarrável, está progressivamente a ser desmantelado há décadas, pedra a pedra, até qualquer dia nada restar. 

Se ainda não perceberam que o objetivo de quem hoje controla Portugal, é exatamente o de acabar com a Nação dos Portugueses, então é hora de acordarem... 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Quem matou Francisco Sá Carneiro?...

 

No dia 19 de Dezembro de 2005, o jornalista Frederico Duarte Carvalho publicou um longo artigo, intitulado o filme - Uma Última Seia no Rossio, que podem encontrar aqui: 

https://ofimdademocracia.blogspot.com/2005/12/o-filme-uma-ltima-ceia-no-rossio.html 

Nada disto seria de notar, não fosse o facto do artigo, na prática, ser um novelo imenso que tem de ser analisado com redobrada atenção e onde se mistura CIA, Henry Kissinger, Sá Carneiro, Mário Soares, Cavaco Silva, o caso Irão-Contras, a democracia em Portugal (e o seu fim...), George W Bush, a Guerra do Iraque e uma curiosa "última ceia" no Rossio, que terá decorrido a 22 de Março de 2003, quando as bombas americanas já caíam em Bagdade. 

À primeira vista, tudo isto configura uma imensa "salada russa" de informações, onde se misturam elementos de todo o tipo e que mais parece algo saído da cabeça de um qualquer doidinho das teorias da conspiração. Porém, o autor de tudo isto não é um sujeito qualquer, mas um jornalista de referência com obra publicada e provas dadas. Creio não estar errado ao afirmar que Frederico Duarte Carvalho, será talvez o jornalista português que mais investigou até hoje o Caso Camarate a fundo, tendo depois publicado a obra Camarate - Sá Carneiro e as Armas Para o Irão. Para além disto, participou também na IX e X Comissão Parlamentar de Inquérito, onde prestou o seu testemunho sobre a tragédia de Camarate. Não estamos, portanto, perante um qualquer teórico das conspirações. Ao invés, este jornalista tem currículo e o que ele escreve sobre o que aconteceu em Camarate, merece uma análise cuidada e profunda reflexão. 

A tese central que Frederico Duarte Carvalho constrói no seu livro Camarate: Sá Carneiro e as Armas Para o Irão, é a de que houve intenção dolosa no sentido de assassinar Francisco Sá Carneiro, devido ao facto de o então Primeiro-Ministro estar prestes a denunciar uma enorme conspiração, com profundas ramificações internacionais. Esta teia criminosa envolveria tráfico de armas, altas patentes militares portuguesas, o Fundo de Defesa Militar do Ultramar e interesses geopolíticos dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. 

O plano para eliminar Sá Carneiro, acabou por ter sustentação em três eixos principais:

1 - O Desvio do Fundo de Defesa Militar do Ultramar
  • Descoberta da Fraude: Sá Carneiro teve acesso a documentos confidenciais que provavam o desvio de verbas deste fundo público.
  • Financiamento Paralelo: O dinheiro desviado servia para financiar operações clandestinas e redes de tráfico de armamento que operavam a partir de Portugal.
  • Denúncia Iminente: Sá Carneiro ordenou uma investigação financeira rigorosa, ameaçando expor figuras poderosas do regime militar pós-25 de Abril, que estavam envolvidas no desvio de milhões de contos do Fundo do Ultramar.
2. A Rota de Armas para o Irão
  • A Conexão a Teerão: Portugal funcionava como um entreposto estratégico para o envio de armamento para o Irão (que estava em guerra com o Iraque e sob embargo dos EUA).
  • Interesses dos EUA: Esta rota estava interligada com os interesses geoestratégicos dos EUA e que à época eram ocultos (ainda não tinha rebentado o escândalo que ficaria conhecido mundialmente como o Caso Irão-Contras).
  • Bloqueio Político: Como Primeiro-Ministro, Sá Carneiro tinha o poder legal para travar o tráfico de armas que passava por Portugal e neste sentido, ele pretendia proibir que os EUA continuassem a utilizar o território português, para levar a cabo este comércio ilegal de armamento. Isto, obviamente, constituía uma afronta direta a Washington e ao Império Americano em plena Guerra Fria. 
3. Eliminação da Resistência Política em Portugal
  • Ameaça ao Sistema: Sá Carneiro era visto por Washington como uma força política intransigente, com uma postura política soberanista, bastante imprevisível e incorruptível face às máfias militares que operavam em Portugal. A CIA passou a considerar Sá Carneiro como um alvo a abater, pois este estava a ameaçar interesses geoestratégicos dos EUA. Terá sido, com grande probabilidade, Henry Kissinger a dar o avalo final para o assassinato de Sá Carneiro, quando visitou Lisboa poucos dias antes do atentado, a pretexto de uma alegada «missão importante» que nunca foi devidamente explicada. Em 1980, Kissinger era conselheiro e um dos homens de confiança da administração Reagan. Tudo leva a crer que foi precisamente por este motivo, que Kissinger foi escolhido para vir discretamente a Lisboa, com o intuito de preparar o terreno para a substituição de Sá Carneiro e "acertar as agulhas" com os novos poderes em Portugal, que assumiriam o governo após o atentado. 
  • Garantia de Impunidade: A morte de Sá Carneiro (juntamente com a do Ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa), visava garantir o silenciamento das investigações em curso, salvaguardando assim a impunidade definitiva de todos os envolvidos. 
  • Intimidação: Matar Sá Carneiro de forma violenta, era também uma forma de intimidar outros eventuais futuros poderes em Portugal, que pudessem ter o atrevimento de vir a tentar afrontar os EUA. A mensagem de Washington era simples, mas brutal: quem desafiar o Império, pode vir a ter um fim semelhante ao de Sá Carneiro... 

Portugal e o povo português merecem saber a verdade completa sobre aquilo que realmente aconteceu em Camarate. O dia 4 de Dezembro de 1980, foi o nosso 11 de Setembro. A morte de Sá Carneiro, para mim, marca o momento no período do pós-25 de Abril, em que Portugal fica definitivamente reduzido à condição de um mero Estado vassalo do Império Americano. A pouca soberania que nos restava como Estado e à qual ficámos reduzidos por intermédio da «descolonização exemplar», esfumou-se com o atentado de Camarate. 

Acredito que, no mínimo, se não foi a CIA que levou diretamente a cabo o atentado que matou Sá Carneiro, esta pelo menos facilitou o mesmo, em provável conluio com altas patentes militares em Portugal, que estavam envolvidas tanto em negócios de tráfico de armas, como no desvio de milhões de contos do Fundo de Defesa Militar do Ultramar. É também plausível que tenham estado implicadas, directa ou indirectamente, figuras políticas influentes da época. 

Tudo indica que é também falsa a teoria muito circulada, que advoga que Adelino Amaro da Costa era o verdadeiro alvo do atentado. Na realidade e pelos vários motivos já expostos acima, o objetivo principal dos conspiradores seria mesmo a eliminação física de Sá Carneiro, pois este havia-se tornado demasiado perigoso e incómodo, tanto para os americanos, como para certas pessoas com poder em Portugal. 

A razão pela qual eu acredito que até hoje todas as Comissões Parlamentares de Inquérito e investigações associadas ao Caso Camarate, nunca deram em nada, deve-se ao facto dos EUA estarem diretamente implicados nesta trama. Nenhum governo português quer ter nas mãos uma conclusão oficial e devidamente comprovada, que afirme de forma explícita, que foram os Estados Unidos da América que assassinaram o Primeiro-Ministro de Portugal em 1980. A acontecer tal coisa, o Estado Português teria de pedir responsabilidades a Washington e todos sabemos que no atual regime, não há um único político que tenha capacidade ou coragem para tal. 

A extinção da Direção-Geral de Segurança (DGS) no dia 25 de Abril de Abril de 1974, teve também potencialmente um papel na morte de Sá Carneiro. Portugal, em consequência disto, ficou sem um serviço de informações digno desse nome. De 1974 até 1984, data em que foi criado o atual Serviço de Informações de Segurança (SIS), Portugal esteve entregue à sorte no que diz respeito a capacidades de inteligência, espionagem e contra-espionagem. Esta falha gravíssima, com alta probabilidade, facilitou toda a conspiração que levou à tragédia de Camarate. 

A forma como Sá Carneiro morreu e os motivos que levaram à sua morte, deveriam de ser motivo de profunda indignação para todos em Portugal. Isto é uma questão que ultrapassa a pequena política dos partidos. É a dignidade nacional que está em causa e esta não poderá ser restaurada, enquanto os responsáveis pelo atentado de Camarate não forem todos devidamente expostos em praça pública.