sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Alguns subsídios para a compreensão do Caso Camarate


«O nosso Povo tem sempre correspondido, nas horas de crise. As elites, as chamadas elites, é que sempre o traíram (...).» - Francisco Sá Carneiro, em Abril de 1978 (dois anos antes de ser assassinado)
 
Desde há mais de dez anos que eu investigo o Caso Camarate, sendo que até já cheguei a falar uma vez com José Esteves, que terá sido quem fez a bomba incendiária que matou Sá Carneiro e tenho reunido imensa informação sobre o assunto em questão. Deixo-vos aqui alguns subsídios que são mais do que suficientes para se perceber o que se passou no dia 4 de Dezembro de 1980. 
 
Em primeiro lugar, podem ficar com esta entrevista ao próprio José Esteves, onde se vê também o jornalista Frederico Duarte Carvalho que faz de tradutor. Este terá sido por confissão própria, quem fez a bomba incendiária a mando de Fernando Farinha Simões, que depois foi colocada no Cessna 421 que acabou por cair em Camarate. José Esteves nasceu em Angola, foi comandante da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a certa altura, começou a ser usado pela CIA para fazer algum trabalho sujo. Durante o PREC José Esteves fez parte do Movimento Democrático de Libertação de Portgual (MDLP), que andava a colocar bombas em sedes do Partido Comunista Português (PCP). Foram em grande parte as bombas feitas pelo José Esteves que aterrorizaram a extrema-esquerda durante o Verão Quente de 1975. Em relação a Camarate, ele alega que não sabia que a bomba que fez era para matar Sá Carneiro e até fala de uma «segunda bomba» que seria de Frank Stugis, outro operacional da CIA, que esteve também envolvido em tudo isto até ao pescoço e que até se suspeita, que possa ter estado também implicado no assassinato de John F. Kennedy em 1963. Eu digo que é mentira. Só havia uma bomba e foi a que José Esteves fabricou, só que ele não quer admitir que é corresponsável pela morte de 7 pessoas inocentes e então inventou a tal estória da «segunda bomba»:
 
 
 
À margem, temos aqui um episódio insólito que José Esteves protagonizou em 1996, quando estacionou um carro blindado à porta de casa na Rua de São Ciro em plena Lisboa. Por aqui percebem melhor o "calibre" e o estilo da personagem em causa:
 
 

 
Depois, temos aqui outra peça-chave em toda esta história, neste caso Fernando Farinha Simões. Esta, é uma personagem, que também andou metido no MDLP e tem uma história de vida que dava para escrever um livro. Por confissão própria, trabalhou para a CIA até 1989, tem ligações familiares a Israel, às Forças de Defesa de Israel, à Mossad e foi ele que recrutou José Esteves para a operação que resultou na tragédia de Camarate, tendo pago a este 200 mil dólares pelo fabrico da bomba. Este Fernando Farinha Simões admite até que todo o dinheiro que financiou o assassinato de Sá Carneiro, foi fornecido pela CIA:
 
 
 
Aqui temos Frederico Duarte Carvalho, em duas entrevistas que deu a Alan Weberman. Este é o jornalista que mais tem contribuído para expor a verdade sobre Camarate. É o autor do livro Camarate - Sá Carneiro e as Armas para o Irão
 
 
 

Por fim, voltamos a Fernando Farinha Simões e aqui deixo o link para a longa confissão de 18 páginas, que este escreveu em 2012 na prisão, enquanto cumpria pena por ter sequestrado uma jornalista. Segundo o próprio, ele terá sido abandonado pela CIA em 1989 e como os crimes em causa já prescreveram, ele já nada tem a esconder: 

https://portugaldeantigamente.blogs.sapo.pt/tag/matou 

Desta longa confissão de Fernando Farinha Simões, dei-me ao trabalho de extrair alguns excertos que falam por si:

«Há também Portugueses que estavam a beneficiar com o tráfico de armas, como o Major Canto e Castro, o General Pezarat Correia, Franco Charais e o empresário Zoio. Sabe-se também já nessa altura que Adelino Amaro da Costa estava a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar acabar com lobbies instalados. Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições. Restava portanto a via de um atentado.

Passados alguns dias, recebo um telefonema do Major Canto e Castro (pertencente ao conselho da revolução), que eu já conhecia de Angola, pedindo para eu me encontrar com ele no Hotel Altis. Nessa reunião está também Frank Sturgies, e fala-se pela primeira vez em "atentado", sem se referirem ainda quem é o alvo. referem que contam comigo para esta operação. O Major Canto e Castro diz que é preciso recrutar alguém capaz de realizar esta operação.

Tenho depois uma segunda reunião no Hotel Altis com Frank Sturgies e Philip Snell, onde Frank Sturgies me encarrega de preparar e arranjar alguns operacionais para uma possível operação dentro de pouco tempo, possívelmente dentro de 2 ou 3 meses. Perguntam-me se já recrutou a pessoa certa para realizar este atentado, e se eu conheço algum perito na fabricação de bombas e em armas de fogo.

[...]

Tendo que organizar esta operação, falo então com José Esteves e mais tarde com Lee Rodrigues ( que na altura ainda não conhecia). O elo de ligação de Lee Rodrigues em Lisboa era Evo Fernandes, que estava ligado à resistância moçambicana, a renamo. Falo nessa altura também com duas pessoas ligadas à ETA militar, para caso do atentado ser realizado através de armas de fogo.

Depois, noutro jantar em casa de Frank Carlucci, na Lapa, na Mansarda, no último andar, onde jantamos os dois sozinhos, Frank Carlucci diz abertamente e pela primeira vez, o que eu tinha de fazer, qual era a operação em curso e que esta visava Adelino Amaro da Costa, que estava a dificultar  o transporte e venda de armas a partir de Portugal ou que passavam em Portugal, e que havia luz verde dada por Henry Kissinger e Oliver North. Cumprimento ambos, referindo que sou "o homem deles em Lisboa".

Três semanas antes dos atentado, Canto e Castro e Frank Surgies, referem pela primeira vez, que o alvo do atentado é Adelino Amaro da Costa. O Major Canto e Castro afirma que irá viajar para Londres. Frank Sturgies pede-me que obtenha um cartão de acesso ao aeroporto para um tal Lee Rodrigues, que é referido como sendo a pessoa que levará e colocará a bomba no avião.

[...]

Vou e levo comigo José Esteves. Essa reunião tem lugar entre as 20 e as 23 horas, nela participando Philips Snell, Oliver North, Frank Sturgies, Sydral e Lee Rodrigues e mais cerca de 2 ou 3 estrangeiros, que julgo serem americanos. Nesta reunião é referido que há que preparar com cuidado a operação que será para breve, e falam-se de pormenores a ter em atenção.

É  referido também os cuidados que devem  ser realizados depois da operação, e o que fazer se algo correr mal. A língua utilizada na reunião é o Inglés. José Esteves recebeu então USD 200.000 pelo seu futuro trabalho. Eu não recebi nada pois já era pago normalmente pela CIA. Eu nessa altura recebia da CIA o equivalente a cinco mil dólares, dispondo também de dois cartões de crédito Diner's Club e Visa Gold, ambos com plafonds de 10.000 Doláres.

[...]

José Esteves prepara então em sua casa no Cacém,  um engenho para o atentado. Conta com a colaboração de outro operacional  chamado Carlos Miranda, expecialista em explosivos, que é recrutado por mim, e que eu já conhecia de Angola, quando Carlos Miranda era comandante da FNLA e depois CODECO em Portugal. José Esteves foi também um dos principais comandantes da FNLA, indo muitas vezes a Kinshasa.

Depois do artefacto estar pronto, vou novamente a Paris. No Hotel Ritz, à tarde, tenho um encontro com Oliver North, o cor. Wilkison e Philip Snell, onde se refere que o alvo a abater era Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa.

Volto a Portugal, cerca de 5 ou 6 dias antes do atentado. É marcado por Oliver North um jantar no hotel Sheraton. Nesse jantar aparece e participa um indivíduo que não conhecia e que me é apresentado por Oliver North, chamado Penaguião. Penaguião afirma ser segurança pessoal de Sá Carneiro. Oliver North refere que Penaguião faz parte da segurança pessoal de Sá Carneiro e que é o homem que conseguirá meter Sá Carneiro no Avião. Penaguião afirma, de forma fria e directa que sá Carneiro também iria no avião, "pois dessa forma matavam dois coelhos de uma cajadada! "

Afirma que a sua eliminação era necessária, uma vez que Sá Carneiro era anti-americano, e apoiava incondicionalmente Adelino Amaro da Costa na denúncia do trático de armas, e na descoberta do chamado saco azul do Fundo de Defesa do Ultramar, pelo que tudo estava, desde o início, preparado para incluir as duas pessoas.

Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Fico muito receoso, pois só nesse momento fiquei a conhecer a inclusão de Sá Carneiro no atentado. Pergunto a Penaguião como é que ele pode ter a certeza de que Sá Carneiro irá no avião, ao que Penaguião responde de que eu não me preocupasse pois que ele, com mais alguém, se encarregaria de colocar Sá Carneiro naquele avião naquele dia e naquela hora, pois ele coordenava a segurança e a sua palavra era sempre escutadda. No final do jantar, juntam-se a nós três o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas.

Fico estarrecido com esta nova informação sobre Sá Carneiro, e decido ir, nessa mesma noite, à residência do embaixador dos EUA, na Lapa, onde estava Frank Carlucci, a quem conto o que ouvi. Frank Carlucci responde que não me preocupasse, pois este plano já estava determinado há muito tempo. Disse-me que o homem dos EUA era Mário Soares, e que Sá Carneiro, devido à sua maneira de ser, teimoso e anti-americano, não servia os interesses estratégicos dos EUA.

Mário Soares seria o futuro apoio da política americana em Portugal, junto com outros lideres do PSD e do PS. Aceito então esta situação, uma vez que Frank Carlucci já me havia dito antes que tudo estava assegurado, inclusivamente se algo corresse mal, como a minha saída de Portugal, a cobertura total para mim e para mais alguém que eu indicasse, e que pudesse vir a estar em perigo. Isto é a usual "realpolitik" dos Estados Unidos, e suspeito que sempre será.

 [...]

Eu não participo na reunião, fico à porta. Contudo José Esteves diz-me depois que nessa conversa Lencastre Bernardo lhe referiu que, numa anterior conversa com Francisco Pinto Balsemão, este lhe havia dito ter tido conhecimento prévio do atentado de Camarate, pois em Outubro de 1980, Kissinger o informou de que essa operação ia ocorrer. Disse-lhe também que ele próprio tinha tido conhecimento prévio do atentado de Camarate. Disse-lhe ainda que podíamos estar sossegados quanto a Camarate, pois não ia haver problemas connosco, pois a investigação deste caso ia morrer sem consequências.

A este respeito gostaria de acrescentar que numa reunião que tive, a sós, em 1986, com Lencastre Bernardo, num restaurante ao pé do edifício da PJ na Rua Gomes Freire, ele garantiu-me que Pinto Balsemão estava a par do que se ia passar em 4 de Dezembro. No restaurante Fouchet's, em Paris, Kissinger tinha-me dito, “por alto”, que o futuro Primeiro Ministro de Portugal seria pinto Balsemão.

E importante referir que tanto Henry Kissinger como Pinto Balsemão eram já, em 1980, membros destacados do grupo Bilderberg, sendo certo que estas duas pessoas levavam convidados às reuniões anuais desta organização. Deste modo, aquando da conversa com Lencastre Bernardo, em 1986, relacionei o que ele me disse sobre Pinto Balsemão, com o que tinha ouvido em Paris, em 1980. Tive também esta informação, mais tarde, em 1993, numa conversa que tive com William Hasselberg, em Lisboa, quando este me confirmou de que Pinto Balsemão estava a par de tudo.» 

Tudo o que está exposto acima, penso que não deixa margem para a menor dúvida de que a CIA, esteve diretamente envolvida no assassinato de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. É absolutamente vergonhoso como foram precisos mais de 30 anos, para se saber de tudo isto. O Caso Camarate foi propositadamente deixado em "banho-maria" durante décadas, para que o tempo fosse eliminando as provas, as testemunhas e muitos dos próprios participantes que entretanto foram morrendo. Os poucos que ainda respiram, já não podem ser perseguidos judicialmente, pois os crimes já estão prescritos. 

O Caso Camarate, para além de ter sido um crime hediondo, é uma das maiores infâmias e vergonhas da história da Terceira República Portuguesa. É escandaloso como nenhum governo português, tem a coragem de chamar publicamente à responsabilidade o governo dos Estados Unidos da América, por ter assassinado o Primeiro-Ministro de Portugal no dia 4 de Dezembro de 1980. A CIA, a Polícia Judiciária, o Ministério Público, a Embaixada Americana em Portugal e determinados poderes políticos e militares em Portugal, todos colaboraram entre si para garantir que as investigações ao Caso Camarate, nunca resultariam em qualquer julgamento ou condenação. Nunca, em toda a história de Portugal, se registou algo semelhante a isto

Não há verdadeiramente democracia em Portugal. O que há é uma oligarquia travestida de "democracia" e que Washington permite que exista e sobreviva, na condição de que esta alinhe com a agenda do Império. O 25 de Abril e a «descolonização exemplar» que se lhe seguiu, neutralizou as capacidades de projeção de poder, que Portugal tinha no sistema internacional de relações entre as grandes potências. Com a morte de Sá Carneiro, que foi o último político realmente soberanista que tivemos no poder, esfumou-se a pouca independência que ainda restava a Portugal e o País, reduzido à indigência, entregue ao internacionalismo apátrida de Bruxelas e a gente completamente inenarrável, está progressivamente a ser desmantelado há décadas, pedra a pedra, até qualquer dia nada restar. 

Se ainda não perceberam que o objetivo de quem hoje controla Portugal, é exatamente o de acabar com a Nação dos Portugueses, então é hora de acordarem... 

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