«O Mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.» - Fernando Pessoa (1888 - 1935)
O professor John Mearsheimer, que é "apenas" um dos maiores especialistas em relações internacionais no activo, lançou há poucos dias o seu novo canal de youtube. Vale a pena seguirem se gostam de geopolítica, diplomacia e relações internacionais. Posso dizer que sou discípulo do John Mearsheimer já há vários anos e foi com ele que aprendi muito daquilo que hoje defendo e escrevo.
O realismo ofensivo (offensive realism), é uma tese desenvolvida por Mearsheimer (offensive realism), que busca explicar o comportamento das grandes potências no sistema internacional. No fundo, trata-se de perceber porque é que os Estados-Civilização como a Índia, a Rússia, a China, os EUA e até mesmo o Irão, agem da forma como agem no concerto das nações.
Sucintamente, o realismo ofensivo defende quatro ideias principais:
- O sistema internacional é anárquico (não existe uma autoridade global acima dos Estados).
- Os Estados nunca podem ter a certeza das intenções futuras dos outros.
- Pelo motivo acima descrito, as grandes potências procuram maximizar o seu poder, de forma a garantir a sua própria sobrevivência.
- Sempre que possível, as grandes potências tentam alcançar a hegemonia regional e/ou global, porque isso reduz ameaças à sua segurança.
Compreender o realismo ofensivo e as teses de Mearsheimer, é meio caminho andado para se entender porque é que o Mundo hoje está no caos em que está. As várias ideologias e religiões podem enfraquecer ou fortalecer os Estados, dependendo da sua tipologia e formas de implementação, porém, não alteram no essencial o padrão comportamental das grandes potências mundiais. No meio de tudo isto, o direito internacional reduz-se a um mero elemento decorativo e de retórica oca.
Não há esquerdas, nem direitas, nem amigos no sistema internacional em que operam as grandes potências mundiais. O que há são interesses, competição e parcerias estratégicas. É assim que o Mundo funciona e sempre funcionou. Ponto. Se não forem capazes de compreender isto, então não compreendem nada...
No caso particular de Portugal, vale a pena notar que um dos motivos que levou Salazar e o Estado Novo a lutarem pelo Ultramar, foi precisamente a noção de que sem o Ultramar, Portugal ficaria desprovido de "espaço de manobra" no sistema internacional, que foi precisamente o que veio à acontecer com a dita "descolonização" após 1974. A URSS tratou logo de estabelecer a sua hegemonia nas ex-províncias ultramarinas, que foram transformadas em satélites soviéticos. Os soviéticos defenderam o seu Império, como é próprio e natural de qualquer grande potência mundial, nós portugueses é que falhámos na defesa do nosso. A culpa disto foi em parte do próprio Estado Novo, que não se soube adaptar às circunstâncias da época e cristalizou no tempo, não tendo sido capaz de perceber os "ventos de mudança" que nos bateram à porta a partir da década de 1950 e que o Império Português, tal como Spínola defendeu em Portugal e o Futuro, só podia ser salvo através da transformação do mesmo numa Federação ou até mesmo numa Confederação de Estados Portugueses. A insistência de Salazar na descabida política do condicionamento industrial, só agravou os problemas económicos do Império ainda mais e serviu para manter o atraso estrutural.
O 25 de Abril, ao ter reduzido Portugal às suas fronteiras medievais, anulou por completo e em simultâneo, toda a capacidade de projeção real de poder no sistema internacional, que Portugal tinha até 1974. A alternativa estratégica apresentada pelos poderes que nos governaram nos últimos 52 anos, foi a integração de Portugal na CEE/UE, algo que trouxe realmente bastante desenvolvimento material e dinheiro para Portugal, porém, eu pessoalmente não antevejo um bom fim para a UE, pois esta é do ponto de vista internacional um Frankenstein das nações, colado com cuspo e preso por fios. Este tipo de projetos internacionalistas, à semelhança da ex-Jugoslávia e apesar de serem ambiciosos, têm uma certa tendência para acabar mal.
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