sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Ratko Mladic e a (in)justiça dos vencedores


Faleceu ontem na prisão em Haia, o General Ratko Mladic. Quando soube da notícia, vieram-me à memória imagens dos anos 1990, um tempo em que eu ainda era miúdo, mas em que já ouvia falar das Guerras nos Balcãs, mesmo não entendendo nada do assunto na época em questão. 

Não vou aqui fazer juízos de valor sobre a figura de Ratko Mladic, que foi condenado pelo Tribunal de Haia por crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e Genocídio. O que tenho apenas a dizer sobre tudo isto, é que a (in)justiça dos vencedores das guerras que deflagraram após a dissolução da Jugoslávia, está muito longe de ter sido equilibrada e proporcional em relação a todas as partes envolvidas. 

Os sérvios, foram colocados numa posição extremamente difícil durante a década de 1990 e viram-se a braços, com aquilo que à época foi claramente uma conspiração internacional, urdida da parte dos EUA, da UE e da NATO, no sentido de roubar território à Sérvia, um aliado tradicional da Rússia na Europa e um bastião do Cristianismo Ortodoxo. No meio de toda esta confusão, surgiu Ratko Mladic, um então desconhecido militar sérvio-bósnio, com a patente de General, que comandava o Exército da República Sérvia. Esta força militar, ficou conhecida por ser a mais tenaz e proficiente de todas as que então combatiam nos Balcãs e a mais infame também. 

A morte de Ratko Mladic, creio que marca o fim de uma Era na história conturbada dos Balcãs. Ficam, porém, muitas perguntas e questões em aberto e à espera de um dia serem devidamente esclarecidas. O conluio com os EUA e a falta de imparcialidade das forças da ONU em toda esta história, é uma destas principais questões. O que realmente aconteceu em Srebrenica, é outra questão à espera de resposta adequada...

Uma coisa é certa: Os responsáveis croatas pela Operação Tempestade, que foi realizada com o beneplácito dos EUA, da NATO e da UE, nunca foram devidamente julgados pela limpeza étnica da população sérvia, de que foram responsáveis. Não há também a menor dúvida, de que a criação da República do Kosovo, foi uma manobra americana para enfraquecer a Sérvia, amputando-lhe uma parte do território. De seguida, os ianques construíram Camp Bondsteel no Kosovo, que é "apenas" a maior e mais cara base militar americana que foi construída desde a Guerra do Vietname. Sobre a "inocência" dos EUA em toda esta história, estamos portanto conversados...

Na Sérvia, o "carniceiro da Bósnia" como lhe chamam os seus detractores, vai ser honrado com um funeral de Estado, pois muitos sérvios sabem o que lhe ficaram a dever. As Guerras dos Balcãs na década de 1990, foram brutais e houve crimes e abusos cometidos por todas as partes envolvidas. Ratko Mladic, viu-se a braços na época com uma tarefa impossível, ou seja, proteger os territórios e a população etnicamente sérvia, enquanto simultaneamente, tinha de fazer frente a grupos armados e apoiados pela NATO, que não obedeciam às Convenções de Genebra e estavam a tentar cometer actos de limpeza étnica contra os sérvios. Nenhum líder militar, consegue fazer frente a um desafio bélico destes, sem tomar medidas que podem realmente ser consideradas "crime de guerra", principalmente, quando temos uma situação em que muitas vezes os combatentes, estão misturados com a população civil e usam a mesma como escudo. Este foi, verdadeiramente, o drama que Ratko Mladic enfrentou nos Balcãs e tenho sérias dúvidas, de que os senhores juízes do Tribunal de Haia, tenham sido realmente justos, equilibrados e proporcionais, aquando do seu julgamento e condenação. 

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