A pergunta é relevante, pois uma guerra civil na Europa poderia alterar radicalmente não só todas as nossas vidas, mas também o próprio equilíbrio de poder mundial. As últimas semanas têm sido marcadas por protestos um pouco por toda a Europa, que estão a aumentar de intensidade e a tornar-se cada vez mais violentos, principalmente em França onde a situação está, de facto, a tornar-se cada vez mais periclitante a cada dia que passa... Só nas últimas 48 horas, tanto quanto consegui apurar, para além da imensa destruição de lojas e negócios que estão a ser assaltados e pilhados, em Limoges o edifício histórico da Câmara Municipal foi arrasado pelo fogo e no centro de Marselha, uma loja de armas foi tomada de assalto, o que precipitou o envio de blindados para as ruas e pedidos da parte das autoridades. para que as pessoas fiquem em casa. A situação está, portanto, muito feia e com tendência a piorar...
Não me vou alongar aqui sobre as causas sociais deste caos, que são muitas e complexas, mas sim, pretendo antes tentar elucidar os leitores, sobre aquilo que eu julgo serem os três principais actores internacionais, que têm neste momento mais interesse e só têm a ganhar, com a potencial eclosão de uma guerra civil em solo europeu. Estes três actores são, a saber, os Estados Unidos da América, o Estado de Israel e a Federação Russa. Vamos analisar isto, com mais pormenor, caso a caso:
- EUA: Os Estados Unidos podem obter inúmeras vantagens em termos económicos, geopolíticos e geoestratégicos com uma Europa dividida, em guerra civil e enfraquecida. Há uma coisa que a história do último século demonstra muito bem e esta é que os EUA têm em larga medida uma economia dependente da guerra, as famosas "foerver wars", que são inteiramente do interesse do complexo militar-industrial americano, com tentáculos presentes e bem fundos, tanto no Deep State, como em todas as agências de inteligência e espionagem dos EUA.
Uma Europa em guerra civil, iria necessariamente tornar-se mais dependente de fornecedores externos de energia, como é o caso dos EUA. O gás natural liquefeito (LNG) americano, adquiriu um peso importante no abastecimento europeu nos últimos anos, devido ao facto de a União Europeia ter aprovado um plano oficial, para acabar com todas as importações de gás russo de forma definitiva já a partir de Setembro de 2027. Esta mudança reforçou a influência energética americana na Europa, simultaneamente encarecendo de forma extremamente significativa o preço do gás pago pelos europeus. O resultado directo disto é uma perda acentuada da competitividade económica da Europa, mais uma vez em benefício dos EUA. Para além disto, uma guerra civil teria a vantagem de levar à destruição e/ou sabotagem de infraestruturas energéticas, que teriam de ser reconstruidas e esta é outra oportunidade de negócio para Washington.
Em termos de armamento, uma guerra civil também proporcionaria uma fantástica oportunidade de negócio para o complexo militar-industrial americano, uma vez que os governos europeus seriam obrigados a comprar biliões, em todo o tipo de armas à indústria de defesa americana.
Uma Europa em guerra civil teria também mais dificuldade em construir uma política externa comum ou desenvolver uma indústria militar independente, que reduzisse a dependência tecnológica em relação aos EUA. Isto é especialmente relevante em termos estratégicos da perspectiva de Washington, porque a autonomia estratégica europeia é um tema central nas discussões sobre o futuro da relação transatlântica. Os EUA não querem, nem nunca quiseram, ter uma Europa com autonomia estratégica e por isso mesmo, é que passaram as últimas décadas a investir pesadamente no suborno e cooptação das elites europeias.
Não acredito que os EUA queiram destruir a Europa a um nível extremo, pois isso teria depois consequências negativas para os próprios EUA. Porém, estou em crer que os EUA têm todo o interesse em enfraquecer a Europa de forma muito significativa, de forma a dar mais margem de manobra a Washington no campo internacional e ajudar a salvar a economia americana e o dólar, nem que seja com um novo Plano Marshall, para depois vir reconstruir aquilo que os próprios americanos ajudaram a destruir. Neste sentido, faz todo o sentido que os EUA trabalhem nos "bastidores", no sentido de fomentar uma guerra civil de baixa/média intensidade em solo europeu.
- Israel: O Estado de Israel, em teoria, tem inúmeras vantagens estratégicas que pode ganhar com uma guerra civil europeia. Para começar, uma Europa mergulhada num conflito interno teria menos capacidade para coordenar a sua política externa. Isto levaria naturalmente à redução da pressão diplomática sobre Israel em questões como a Palestina, os colonatos ilegais, a Faixa de Gaza e o direito internacional, que Israel viola sistematicamente há décadas.
A redução do apoio europeu à Causa Palestiniana é desde há muito um dos grandes objectivos estratégicos do Estado Sionista. A União Europeia e os seus Estados-membros têm instrumentos diplomáticos, económicos e humanitários de apoio à Causa Palestiniana. Uma crise interna grave, como a que seria provocada por uma guerra civil, conduziria inevitavelmente a uma grande redução da atenção e dos recursos europeus no Médio Oriente, com a consequente perda de influência.
Uma perda de capacidade de ação autónoma da parte da Europa, daria também aos Estados Unidos o monopólio total ao nível da segurança e defesa no Ocidente. Ora, como Israel mantém uma parceria estratégica e militar muito estreita com Washington, a ponto de as elites anglo-sionistas serem hoje quase indistinguíveis em ambos os países, isto acabaria por reforçar em muito a influência sionista ao nível da segurança da própria Europa.
A indústria de defesa israelita também teria muito a ganhar com um cenário de guerra civil na Europa, que levaria a um aumento da procura de sistemas de vigilância, cibersegurança, defesa antidrone, entre outras tecnologias militares, nas quais as empresas israelitas têm experiência.
Acima de tudo, uma guerra civil na Europa, com o Jihadismo radical e violento à solta, levaria a um inevitável aumento do sentimento islamofóbico e a um reforço de alguns partidos da direita radical, que fazem da defesa de Israel e do Sionismo uma das suas principais bandeiras. Quanto mais ódio existir na Europa contra os muçulmanos e o Islão, mais o Estado de Israel tem a ganhar em termos diplomáticos, geostratégicos e geopolíticos, abrindo assim o caminho para a criação do Grande Israel.
- Rússia: A Federação Russa considera em termos históricos, que a Europa constitui uma ameaça existencial à sua segurança. Não adianta tentarem debater isto com os russos e tentar convencê-los do contrário, pois eles são absolutamente irredutíveis neste ponto e têm razão em sê-lo, sendo que temos os exemplos de Napoleão e Hitler, como prova daquilo que pode acontecer à Rússia, quando os europeus se unem num esforço colectivo, no sentido de invadir e pilhar a mesma.
A Rússia tem, portanto, todo o interesse em garantir que a Europa não se una e após o que sucedeu na Ucrânia desde 2022, com a Europa a enviar biliões em armamento para Kiev, a Rússia passou a considerar que é um imperativo máximo da sua política externa, fomentar a divisão e o enfraquecimento da Europa.
Os russos têm imenso a ganhar em termos estratégicos e geopolíticos, com uma guerra civil na Europa, sobretudo se o conflito levar à destruição da unidade política europeia, dividir a NATO e enfraquecer os países que apoiam a Ucrânia. No entanto, é necessário ter em conta que os russos não querem uma guerra civil na Europa que saia fora de controlo e onde possa haver o risco de as armas nucleares francesas, caírem nas mãos de grupos jihadistas radicais, como a Al Qaeda ou o Estado Islâmico. Neste sentido, portanto, o que interessa estrategicamente à Federação Russa é uma guerra civil europeia de baixa/média intensidade e não um conflito em larga escala, que poderia tornar-se perigoso para a própria Rússia.
Já li algures alguns rumores que apontam para o facto de os russos terem já preparados há anos, os planos de contingência necessários, precisamente para intervir em caso de emergência na Europa com forças especiais, num potencial cenário hipotético de colapso total da ordem e do poder do Estado na República Francesa. A confirmar-se uma situação destas, a Rússia não iria hesitar em despachar forças especiais para França, precisamente para tomar posse do arsenal nuclear francês, antes que o mesmo pudesse cair nas mãos de grupos radicais. Obviamente, a probabilidade disto acontecer é muito baixa e acredito que a NATO e os EUA, também devem ter os seus planos neste sentido, todavia, sempre "vale mais prevenir, do que remediar..."
Uma guerra civil na Europa, também levaria à muito provável paralisação das instituições europeias, impactando assim directamente a diplomacia europeia. Moscovo iria passar a ter muito mais margem para negociar separadamente com os governos nacionais.
Do ponto de vista da defesa, o desvio de recursos militares que uma guerra civil na Europa provocaria inevitavelmente, iria reduzir a capacidade de dissuasão da NATO no flanco oriental. Uma Europa absorvida por conflitos internos, teria muito mais dificuldade em financiar a defesa ucraniana, fornecer armamento e manter uma política comum perante Moscovo.
O ganho de influência económica na Europa, é outra tremenda vantagem que a Federação Russa poderia obter. A instabilidade provocada por uma guerracivil iria afastar investimento, perturbar cadeias de abastecimento e aumentar os custos energéticos e de defesa. A Rússia iria então, naturalmente, competir pelo mercado europeu com os EUA de uma forma muito intensa.
Dê por onde der, o clima de divisão provocado por um conflito na Europa, vai sempre favorecer os interesses russos de uma forma muito significativa e dar mais liberdade de acção a Moscovo em termos geopolíticos. A Rússia teria aqui uma "oportunidade de ouro" para reconstruir o Império Russo, retomando os países Bálticos, entre outros territórios, ao passo que reforçaria a sua posição em regiões disputadas e tentaria alterar equações estratégicas, de forma favorável à Rússia.
O principal ganho potencial da Rússia numa eventual guerra civil europeia, será o de uma Europa dividida, militarmente distraída, mais enfraquecida e politicamente incapaz de limitar a influência russa.
Pessoalmente, eu estou convencido de que vai acontecer alguma coisa violenta na União Europeia. Lembram-se da Primavera Árabe nos idos de 2010? E das "revoluções coloridas" que a CIA e George Soros patrocinaram em vários países europeus? Isto é o modus operandi desta gente há décadas. O caos é artificialmente preparado, planeado e executado, travestido inicialmente de "manifestações pacíficas" por uma causa qualquer, que rapidamente descambam em violência e guerra civil armada, de forma a fazer nascer uma nova ordem, que seja mais conveniente a determinados poderes.
Algum tipo de desestabilização em massa está a caminho na União Europeia e não me espantaria que os russos e americanos, até estejam "combinados" nisto, tal como estiveram "combinados" em segredo durante a Guerra Fria em muitas ocasiões, quando se tratava de "entalar" a Europa... Tudo aponta neste sentido e todos os factores desta equação - económicos, sociais, geopolíticos e geoestratégicos - quando combinados, dão origem a uma cocktail altamente explosivo que vai ter de rebentar mais tarde ou mais cedo. A única coisa que falta saber é se vamos ter uma "explosão controlada" da situação, que conduzirá a um determinado desfecho previsto e estudado por forças superiores, ou se, antes pelo contrário, vamos ter caos e banho de sangue numa escala como a Europa não vê há décadas.
Já agora, esqueçam também essa patranha da "extrema-esquerda" e da "extrema-direita", pois isso não interessa nada para aqui. A dictomia da "esquerda vs. direita", para além de ser intelectualmente redutora, é mais outro jogo de manipulação, que teve origem na Revolução Francesa. O verdadeiro condutor das relações internacionais e da geopolítica, são e sempre foram os interesses e não as ideologias. Os EUA, Israel e a Rússia, fazem uso de grupos afiliados tanto com a extrema-esquerda, como com a extrema-direita, conforme as conveniências políticas e estratégicas do momento. Aqui não há inocentes e ninguém tem as mãos limpas.
Aquilo que a mim me preocupa mais até, para ser sincero, é a possibilidade muito real de haver aqui um monumental erro em preparação... Os erros de cálculo em geopolítica têm sido comuns ao longo da história, sendo que aquilo que determinados actores prevêem e preparam nos bastidores, nem sempre corre conforme planeado... basta ter-se em conta o que aconteceu em 1914, quando deflagrou a Primeira Grande Guerra, que se previa que terminasse em poucos meses e ao invés, acabou por se arrastar no lamaçal das trincheiras durante quatro longos anos, provocando 30 milhões de vítimas, se somarmos feridos e baixas civis e militares.

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